Traição (enfim), 10 de novembro de 2007.
5h55. Ela sempre acordava antes. 6h31. Entrou no e-mail secreto que só ela sabia da existência. Ela e um cara que mora fora. Surpresa. Ele enviou: “hoje, 19h?” Está na cidade. Invento um curso à noite. Respondeu: “OK, Bj.” Olhou para o lado. O marido sorria, encostado à porta:
“O que está fazendo?”
“Nada.”
6h43. Ficou um tempo imóvel debaixo do chuveiro. 7h05. Vestiu-se. Olhou-se no espelho, virou-se para um lado, para outro. O que está fazendo, vestindo-se para ele? 7h10. Acordou o filho abraçando-o como quem quer esmagá-lo. “Vai, filhão, papai já está te esperando.”
7h23. Ligou o rádio do carro, saiu para a rua e cantou junto: “Meu caminho é cada manhã, não procure saber onde estou, meu destino não é de ninguém, e eu não deixo os meus passos no chão…”
8h14. No escritório, releu: “Hoje, 19h?” Nem o endereço. Porque ele sempre se hospedava no mesmo lugar. Desistiu. Não vai rolar. Petulante. Nem um beijo. Não vou! A adrenalina comandava o seu dia, sofrimento e expectativa, a ansiedade: a idéia de ir ou não ir, o único pensamento. Levaria o dia como se fosse. Na última hora, decidiria. Era isso que atraía?
10h13. Ligou para a Casa do Saber. Inscreveu-se num curso de ciência.
10h44. Recebeu um telefonema do marido.
“Vem para jantar?”
“Não. Como por aqui mesmo.”
“Ta, se eu estiver dormindo, quando você chegar, não se esquece de uma coisa.”
“Do quê?”
“De que eu te amo.”
12h00. Desceu para o almoço. Encontrou casualmente o irmão gêmeo do marido. Foram juntos ao italiano da esquina. 12h22. Brindaram. Então, ele passou a falar como invejava a vida previsível do casal, que ele preferia ser o irmão a sofrer tudo o que sofre com as suas indecisões e a ilusão de que há algo melhor atrás da vida planejada. E perguntou se ela tem vontade de trair.
“Eu? Ah… Sei lá. Trabalho tanto.”
13h07. Despediram-se na calçada. Ela acendeu um cigarro e esperou ele entrar no prédio de escritórios da esquina.
13h09. Na farmácia, comprou uma paçoca natural, uma Coca e um envelope com três unidades de camisinhas lubrificadas testadas uma a uma eletronicamente, transparentes, com látex e reservatório, que mantém a sensibilidade natural.
13h21. Sentou-se no banco em frente para tomar a Coca e fumar outro cigarro. Ao lado, outros fumantes aproveitaram os últimos minutos de pausa do almoço, antes de voltarem ao maldito edifício em que é proibido fumar. Três advogados fumavam e falavam com ela, que mal prestava atenção. Gracejos. Cantadas inocentes. Tipo: “Ela nunca sairia para beber com a gente porque não merecemos a sua companhia…” “É ocupada demais.” “No que tanto pensa?” “Aposto que é corintiana.” Aqueles três sempre a cantavam. Advogados do andar de cima. E quer apostar? Os três são casados com garotas lindas, bem vestidas, submissas. Submissas? Que mania de julgar sem conhecer. Preconceito, sabia? Ela se perguntou por que a maioria dos homens beija a esposa, sai de casa e canta mulheres na calçada, no trânsito, no metrô, no trabalho, na pausa do almoço, é costume tribal? Auto-afirmação do macho-alfa. Riu. Qual daqueles três advogadozinhos recém-formados, recém-casados, seria o macho-alfa?
13h29. E se eu for embora agora, entrar correndo naquele táxi, mandá-lo seguir pela Imigrantes, descer a serra até a praia, tirar a roupa, entrar no mar e sair nadando? Adorava pensar em atitudes intempestivas. Ela já foi tão louca anos atrás. A mais maluca. Quantas vezes não foi para a praia e voltou no mesmo dia, matando aula, estágio, trabalho? Saudades de ser volúvel! Saudades da vida.
13h30. Sempre há algo melhor atrás do planejado? Despediu-se dos galanteadores com sorriso, apagou o cigarro, jogou fora a paçoca e a lata no lixo reciclado e subiu.
Trabalho sem parar. Desde o almoço. Quase como um surto, não viu a hora passar, planilhas e relatórios, várias janelas abertas no seu monitor, nem leus os e-mails, nem atendeu o telefone, nem tomou café. Até o celular no vibracall chamar a sua atenção às 17h20. Era do salão. Reservara o horário das 17h. Cortar as pontas. Esquecera-se completamente. Pediu mil desculpas. Consegue chegar em 40 minutos, dá?
17h22. Salvou os seus arquivos, um por um, fechou as janelas. Desligou o computador. Olhou ao redor. Apesar de o escritório estar apinhado, em horário de pico, ela nunca se sentiu tão só. São seus amigos. Seus colegas. Trabalham “na casa”, como chama a empresa, com sinergia e transparência. Mas, no fundo, são apenas colegas. Ninguém teria tempo para escutar o dilema que queima o seu estômago desde quando acordou. Nem os três advogados do andar de cima.
17h24. Pegou um café num copo descartável da máquina e saiu à francesa.
18h03. Sentada diante do espelho, coberta por um pano preto, com o logo do salão impresso no peito, olhou para Jonas, o seu cabeleireiro, e teve vontade de chorar. Ele transmitia confiança. Desde a adolescência, fazia o seu cabelo. Fez na sua formatura e no seu casamento. Mas Jonas e todos pareciam ocupados. Corriam. “Só as pontas, amor.” E sorriu sem graça.
18h41. Parou no estacionamento credenciado da Rua Mário Ferraz. Olhou o aviso: 24 HORAS. Guardou o recibo.
18h45. Pagou o curso na Casa do Saber. Pegou o recibo e a apostila. Circulou pelas estantes. Folheou um livro sem reparar no nome ou capa ou autor.
18h50. Comeu um pão de queijo com um capuccino pequeno, no café da livraria. Acendeu o cigarro e olhou o relógio de parede avançar. 18h52. Tragou e não pensou em nada. 18h53. Bebericou. Tragou. 18h54. Tragou. 18h55. Não fez nada. 18h56. Tragou. 18h57. Não fez nada. 18h58. Bebeu, tragou e apagou o cigarro. Fechou os olhos, respirou uma, duas, três… Levantou-se às 19h em ponto.
19h01. Entrou num táxi. Retocou a maquiagem e meteu na boca uma balinha de hortelã. Sorriu. “Pode aumentar o rádio?”, pediu ao motorista. Começou a cantar junto, baixinho: “Eu só queria te contar, que eu fui lá fora e vi dois sóis num dia e a vida que ardia sem explicação. Explicação. Não tem explicação. Explicação. Sem explicação…” Ficou tão emocionada. Triste. O pôr-do-sol da primavera é vermelho. Cássia Eller morreu. O Ibirapuera está tão colorido.
19h16. Bateu na porta do flat. Ele atendeu, sorriu. Ela entrou. Ele olhou para o corredor, para um lado, para o outro, e fechou.Epílogo, 24 de novembro de 2007.
23h39. Ela abriu a porta do quarto e saiu. Olhou na bolsa o celular desligado. Voltou para pegar na pia do banheiro o anel de prata, que sempre tira quando lava as mãos. Ele, esparramado nu na cama, dormia. Ela deu um tchau com a mão direita, sem falar nada.
23h41. No corredor do flat, ligou o celular. Chamou o elevador. Olhou o visor do aparelho. A campainha do elevador tocou.
23h42. Entrou o apertou o térreo. Ele desceu um andar e parou. Ficou apreensiva. Entrou um casal jovem, bêbado. Nem a cumprimentaram. Ela se encostou na parede e voltou a apertar o térreo, apesar de a luz do botão estar acesa. Olhou o celular. Ainda nenhuma informação sobre mensagens de texto ou recados. O elevador fechou a porta. Reconheceu o rapaz que tentava beijar a garota: um dos advogados que trabalham no andar acima do seu escritório. Que agarrou a garota por trás e colocou as duas mãos nos peitos dela, que deu uma cotovelada na barriga dele. Ambos riram e olharam para a terceira passageira. Comportaram-se. Ele no canto, abraçando a sua garota por trás, que pediu:
“Aperte o térreo.”
“Já está.”
“Obrigado.”
O rapaz começou a beijar o pescoço da garota, que inclinou a cabeça.
“Oi”, ele disse.
“Oi”, ela respondeu.
“Você conhece?”, perguntou a garota.
“Não”, ele respondeu.
Ela sentia como se quisessem ler os seus pensamentos. Alguém tem poderes para isso? Era como se ambos estivessem concentrados, esforçando-se para roubar os seus segredos. Como enxadristas russos. Ela abaixou a cabeça. Imaginou o que esse garoto vai contar para todo o escritório. O que aquela mulher, que fuma depois do almoço, fazia num flat?! Vai contar para todo o bairro. Ela olhou o visor do celular. O elevador desacelerou. Abriu a porta. Nenhuma mensagem de voz ou de texto. Ótimo. Será que estou desarrumada? Saiu num pulo.
23h44. Olho-se no espelho do hall. Só o cabelo desarrumado. “Me chama um táxi, por favor”, pediu ao segurança encostado na porta giratória. O cara apontou para o lado, onde um taxista com o seu táxi estacionado dormia no banco do motorista. Como são mal-educados. Ela odeia aquele flat. Vai sugerir, por e-mail, para ele se hospedar em outro lugar. Tantas opções na cidade. Ela ficou ao lado da porta traseira do carro, esperando o segurança abri-la. Mas o teimoso não o fez. Deu três tapinhas no capô, acordando o motorista, que ao vê-la, abriu a porta por dentro. “Mário Ferraz, por favor”. Ela disse ao entrar. Sem querer, bateu a porta. O taxista olhou irritado. Deu partida. Por que ela está de mau humor?, perguntou-se. Deu tudo certo. Por que você sempre sai mal-humorada desse flat? Por que será?
Tirou um espelho da bolsa e se penteou como pôde. Tirou um cigarro da bolsa. “Desculpe, mas não pode fumar”, o motorista deu o troco. Ela guardou o cigarro e pediu: “Pode aumentar a música?” Ele demorou, mas obedeceu. Ela cantou baixinho, junto: “Silêncio por favor, enquanto esqueço um pouco da dor no peito. Não diga nada sobre os meus defeitos. Eu não me lembro mais de quem me deixou assim. Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos…”
Abriu a janela. Sentiu o vento úmido. Reparou que chovera muito. Enquanto ela estava trancada no quarto, rolou uma tempestade. Nem percebera. Poças, carros molhados, galhos caídos, faróis piscando no amarelo. Uma árvore caída interrompia o trânsito no Jardins. Sentiu-se culpada: a cidade vivendo um caos, e ela num quarto de flat.
“Porque hoje eu vou fazer, ao meu jeito eu vou fazer, um samba sobre o infinito…”
0h15. Chegou ao estacionamento em que deixara a carro, perto da Casa do Saber. Pagou o táxi. Acendeu um cigarro ainda no banco traseiro. Tragou com prazer. De repente, percebeu o portão do estacionamento trancado por um cadeado. Viu apensar o seu carro, solitário, no fundo do pátio. Desesperada, correu até a Casa do Saber, também fechada. Chamou o segurança da esquina.
“Moço, meu carro ficou lá dentro!”
“Está fechado.”
“Fechado? Mas olha a placa, 24 HORAS.”
“Fechado. Fecha à meia-noite. Às 24h”, e fez aquela cara que todo segurança faz, quando não pode ajudar.
Então, desprotegida, ela começou a chorar. Encostou numa mureta e chorou muito. Ele pegou um celular-rádio. Atendeu o manobrista do estacionamento, já no ponto da Rebouças, esperando o busão para Taboão da Serra. Não adiantaria voltar e abrir o cadeado, o sistema de cobrança estava desligado, Ela voltou a chorar desesperada, enquanto o segurança tentava convencê-lo.
0h27. Chegou o manobrista com a chave. Ela teve vontade de abraçá-lo, pular, dançar. Mas sorriu envergonhada, como se uma criança tivesse sido liberada de um castigo, depois de ouvir um sermão. Deu uma nota de R$50. Ele recusou. Pediu apenas que pagasse o valor de R$10; turno da noite.
0h47. Ela entrou em casa sem fazer barulho. Deixou a apostila do curso que não fez da Casa do Saber sobre a mesa de jantar. Colocou água na chaleira. Correu para ver o filho. Ele dormia, com o abajur aceso e as pernas para fora da cama. Arrumou-o. Beijou todo o rosto. Arrumou a sua mochila, o criado-mudo. Começou a arrumar o seu armário. Ouviu a chaleira apitar.
0h52. Ela bebia um chá verde. O gato entrou na cozinha. Não passou por entre as pernas dela, como sempre. Parou e se sentou no meio da cozinha. Ficou examinando-a, como se a repreendesse. Ela acendeu outro cigarro, colocou a ração no pote. Ele não saiu do lugar.
1h07. Já deveria ter saído do chuveiro pelando. Já se lavara, mas continuava, não tinha vontade de sair. Por ela, ficaria a vida toda debaixo daquele chuveiro, ensaboando-se repetidamente.
1h19. Vestida com uma camisola creme de cetim, e sem acender a luz, ela se enfiou na cama delicadamente. Sentiu o colchão se mexendo. Olhou para o marido. Ele estava deitado, de olhos bem abertos, encarando-a.
“Ai, que susto”, ela disse sem graça.
“Tudo bem?”
“Tudo. Boa noite, querido”, ela disse, beijou-lhe a testa e virou de lado, para ficar de costas para ele.
“Eu te amo”, ele disse.
“Eu também.”
Silêncio. Será que ele dormiu? Não. Ele então perguntou:
“Como foi a sua noite?”
Que pergunta inusitada, desesperadamente fora de hora, por que acordou, por que não dormia pesadamente, roncando, sonhando, como na maioria das noites, por que estava concentrado, curioso? Ela fechou os olhos e respondeu:
“Normal.”